Sazima I, Haemig PD  (2006 Aves, Mamíferos e Répteis de Fernando de Noronha.  ECOLOGIA.INFO 17

Aves, Mamíferos e Répteis de Fernando de Noronha

Ivan Sazima
Departamento de Zoologia
Universidade Estadual de Campinas
Brasil

Paul D. Haemig
Ecology Online
Stockholm,
Suécia

Nota. Esse artigo online é continuamente atualizado e revisado logo que resultados de novas pesquisas científicas tornam-se disponíveis. Portanto, apresenta as últimas informações sobre os tópicos abordados.

O arquipélago de Fernando de Noronha encontra-se no Oceano Atlântico tropical, três graus ao sul da linha do Equador e 345 Km a nordeste do Cabo de São Roque, Brasil (Carleton e Olson, 1999). É o ponto extremo a leste dos neotrópicos e compreende uma ilha principal (16,9 Km²) com uma série de aproximadamente 12 ilhotas (Olson, 1994; Carleton e Olson, 1999).

A ilha e as ilhotas do arquipélago de Fernando de Noronha têm origem vulcânica e nunca foram conectadas por terra ao continente sul-americano. Conseqüentemente, todos os animais nativos do arquipélago colonizaram a ilha transportados pelo ar ou mar.

Em 10 de agosto de 1503, o renomado explorador Américo Vespúcio aportou na ilha principal de Fernando de Noronha e registrou as primeiras descrições de sua fauna para a ciência. Ele não encontrou humanos vivendo na ilha, porém notou que havia uma grande quantidade de árvores e que os pássaros terrestres e marinhos eram abundantes. Os únicos animais distintos que encontrou foram lagartos, cobras e “ratos muito grandes” (Carleton e Olson, 1999). Naquela época remota, acreditava-se que a ilha principal era “quase totalmente coberta de florestas” (Olson, 1994). Hoje restaram apenas florestas secundárias (Stattersfield et al., 1998)

Neste relatório, analisaremos os pássaros, mamíferos e répteis nativos do arquipélago. Fernando de Noronha não possui anfíbios e peixes de água doce nativos. Entretanto, o sapo cururu (Bufo schneideri) e o sapo arbóreo (Scinax aff. ruber) foram introduzidos por humanos (Olson, 1981; Oren, 1984).

Pássaros Terrestres

As seguintes espécies de pássaros terrestres se reproduzem em Fernando de Noronha e teriam colonizado o arquipélago naturalmente:

Juruviara-de-noronha (Vireo gracilirostris)
Cocoruta (Elaenia ridleyana)
Ribaçã ou avoante (Zenaida auriculata noronha)
garça-vaqueira (Bubulcus ibis)

Além disso, Olson (1981) relatou que encontrou fósseis de uma saracura extinta incapaz de voar e não descrita na ilha principal. Ele acrescentou brevemente que as espécies não se pareciam com saracuras do continente brasileiro.

A juruviara-de-noronha e a cocoruta são endêmicas no arquipélago de Fernando de Noronha. A ribaçã, um pombo, também é encontrada no continente brasileiro. A juruviara-de-noronha reproduz-se apenas na ilha principal de Fernando de Noronha, enquanto a cocoruta reproduz-se tanto na ilha principal como na Ilha Rata, a maior das ilhotas (Ridley, 1890; Olson, 1981). Além disso, a cocoruta também tem sido vista em outra ilhota do arquipélago chamada de Ilha do Meio (Oren, 1984). Durante seus estudos na ilha principal, Olson (1981) constatou que a juruviara-de-noronha e a cocoruta são "mais abundantes nas áreas remanescentes da floresta da ponta oriental da ilha e ao redor da base do Morro do Pico." Entretanto, relatou que ambas as espécies também ocorriam com menor freqüência nas árvores ao longo das estradas, em áreas arbustivas e próximas a casas.

A juruviara-de-noronha é mais acentuadamente diferenciada de seus parentes do continente do que a cocoruta ou a ribaçã. Olson (1994) a descreveu como curiosa e dócil, permitindo a proximidade com humanos. Quando comparada ao complexo da juruviara-oliva (Vireo olivaceus), de onde se originou, a juruviara-de-noronha é menor, possui um bico mais longo e delgado, além de cauda e tarso mais longos. “A asa é arredondada em vez de pontiaguda”, mas possui a mesma área de superfície (Olson, 1994).

Essas características anatômicas podem ser consideradas “especializações semelhantes às das aves canoras para apanhar pequenos insetos na folhagem" (Olson, 1994). Oren (1984) relatou que a juruviara-de-noronha geralmente pendura-se de cabeça para baixo, apanhando insetos e outros artrópodes nas folhagens, inflorescências e troncos de árvores, procurando alimento "da copa das árvores até o solo, onde percorre distâncias curtas atrás de sua presa, fazendo lembrar mais uma corruíra do que uma juruviara". Nicoll (1904) constatou que as atitudes da juruviara-de-noronha lembravam as de um rouxinol-pequeno-do-caniços (Acrocephalus scirpaceus), e registrou que a juruviara "é um pequeno pássaro ativo que se movimenta continuamente entre as folhas, apanhando um inseto uma vez ou outra".

Um imigrante relativamente novo em Fernando de Noronha é a garça-vaqueira. Este pássaro colonizou o arquipélago no últimos anos do século vinte e espalhou-se pela ilha principal. Ele também possui uma grande colônia de nidificação em uma das ilhotas.

Muitas outras espécies de pássaros terrestres visitam Fernando de Noronha casualmente a cada ano, provenientes do continente brasileiro, porém não se reproduzem no arquipélago (Nacinovic e Teixeira, 1989). Além disso, alguns pássaros que escaparam ou foram libertados de gaiolas, tais como o galo-da-campina (Paroaria dominicana), foram introduzidos por humanos e agora se reproduzem na ilha principal (Oren, 1982). Por esses motivos, o turista em Fernando de Noronha pode ver mais espécies de pássaros terrestres do que as quatro discutidas neste artigo.

Pássaros Marinhos

A reprodução dos pássaros marinhos abaixo foi registrada no arquipélago de Fernando de Noronha:

Rabo-de-palha-de-bico-vermelho (Phaethon aethereus)
Rabo-de-palha-de-bico-laranja (Phaethon lepturus)
Atobá-mascarado (Sula dactylatra)
Atobá-de-pé-vermelho (Sula sula)
Atobá-pardo (Sula leucogaster)
Catraia ou tesourão-magnífico (Fregata magnificens)
Trinta-réis-marinho (Sterna fuscata)
Trinta-réis-escuro (Anous stolidus)
Trinta-réis-preto (Anous tenuirostris)
Trinta-réis-branco (Gygis alba)

Referências: Sharpe, 1890; Oren (1982, 1984); Nacinovic e Teixeira (1989)

O Rato de Fernando de Noronha

Em 1503, o explorador Américo Vespúcio não encontrou mamíferos em Fernando de Noronha, exceto “ratos muito grandes”. Visto que as pessoas que visitaram a ilha posteriormente não mencionaram esses grandes ratos e por ser improvável que ratos do velho mundo (Rattus spp.) tenham colonizado Fernando de Noronha em seus primórdios, Ridley (1888) propôs que os grandes ratos vistos por Vespúcio pertenciam a uma espécie extinta de mamíferos parecidos com ratos desconhecidos para a ciência.

Em 1973, uma expedição conjunta brasileira e norte-americana, liderada pelo paleontologista Storrs L. Olson, visitou Fernando de Noronha e descobriu muitos fósseis de um grande rato não descrito que poderia ter sido a espécie vista por Vespúcio. Carleton e Olson (1999) formalmente descreveram este animal como o Rato de Fernando de Noronha, com um novo gênero e espécie: Noronhomys vespuccii. Eles nomearam o gênero em função da ilha de Fernando de Noronha porque acreditaram que o rato era endêmico à ilha. Deram nome à espécie em homenagem a Américo Vespúcio porque suas descrições foram a única referência conhecida que sugeriu "a existência de um roedor originário daquela ilha”.

O Rato de Fernando de Noronha foi o único mamífero terrestre nativo do arquipélago. Carleton e Olson (1999) estudaram seus fósseis e encontraram semelhanças em sua morfologia com a dos ratos-do-brejo semi-aquáticos (Holochilus e Lundomys) do continente sul-americano. Estes pesquisadores levantaram a hipótese de que o Noronhomys, Holochilus e possivelmente o Lundomys descendiam de um ancestral comum recente. Como os ratos-do-brejo de hoje, este ancestral pode ter vivido ao longo de pântanos, regatos e rios, construindo seus ninhos, “geralmente em grupos nas árvores e gramíneas que cresciam ao longo de regatos” (Carleton e Olson, 1999). É fácil imaginar como um grupo desses roedores poderia ter ficado preso em um tronco flutuante que partiu das margens do rio e foi arrastado para o mar pelas correntes e ventos, eventualmente aportando em Fernando de Noronha (Carleton e Olson, 1999).

Três roedores exóticos, o rato-doméstico (Rattus rattus), o camundongo (Mus musculus) e o mocó ou roedor (Kerodon rupestris) agora ocorrem em Fernando de Noronha. Acredita-se que os dois primeiros colonizaram a ilha algum tempo depois de 1503, provavelmente vindos dos navios que visitaram a ilha (Carleton e Olson, 1999). O roedor foi introduzido com sucesso em Fernando de Noronha em 1967 (Oren, 1984). Outro mamífero, o gato doméstico (Felis catus) também se encontra em Fernando de Noronha, bem como os muitos tipos de rebanhos domésticos como "cabras, carneiros, bovinos, cachorros e cavalos" (Oren, 1984).

Mamíferos Marinhos

Os golfinhos-de-bico-comprido (Stenella longirostris) utilizam a Baía dos Golfinhos da ilha principal para descanso e reprodução (Maida e Ferreira, 1997).

Répteis

Duas espécies endêmicas de répteis estão presentes no arquipélago: o lagarto vulgarmente chamado de cobra-de-duas-cabeças (Amphisbaena ridleyi) e o pequeno lagarto (Euprepis atlanticus). Além disso, o tejo (Tupinambis merianae) e a lagartixa (Hemidactylus mabouia) foram introduzidos pelos humanos (Olson, 1981; Oren, 1984).

O lagarto Amphisbaena ridleyi não possui membros e indubitavelmente é a “cobra” que Américo Vespúcio viu em 1503. Segundo Carleton e Olson (1999), este lagarto tem uma aparência de serpente que “sugeriria uma cobra para qualquer pessoa que não fosse um herpetologista”.  A cobra-de-duas-cabeças é uma forma verdadeiramente distinta de Amphisbaena, com uma dentição molariforme unicamente derivada para alimentar-se de caracolóis (Pregill, 1984).  Nas encostas do Morro do Pico, que é o ponto culminante (321 m) da ilha principal, o lagarto Amphisbaena ridleyi de Fernando de Noronha é mais abundante do que os lagartos do mesmo gênero no continente (Olson, 1981).

O pequeno lagarto é "ubíquo e incrivelmente abundante" (Carleton e Olson, 1999). A análise molecular de seu material genético mostra que seus ancestrais vieram da África em vez da América do Sul (Mausfeld et al., 2002).

Tartarugas-do-mar

A tartaruga-verde (Chelonia mydas) reproduz-se em algumas praias arenosas da ilha principal. A tartaruga-de-pente (Eritmochelys imbricata) também ocorre nas águas do arquipélago, embora não se saiba se a mesma se reproduz em alguma das ilhas.

Referências

Carleton MD, Olson SL  (1999)  Amerigo Vespucci and the rat of Fernando de Noronha:  a new genus and species of Rodentia (Muridae: Sigmodontinae) from a volcanic island off Brazil's continental shelf.  American Museum Novitates 3256: 1-59

Losey GS, Balazs GH, Privitera LA  (1994)  Cleaning symbiosis between the wrasse Thalassoma duprerrey and the green turtle Chelonia mydasCopeia 1994: 684-690

Maida M, Ferreira BP  (1997)  Coral reefs of Brazil: an overview.  Proceedings of the 8th International Coral Reef Symposium 1: 263-274.

Martínez-Vilalta A, Motis A  (1992)  Family Ardeidae (Herons).  Pp. 376-429 in Handbook of the Birds of the World, Volume 1. del Hoyo J, Elliott A, Sargatal J (editors). Lynx Editions, Barcelona

Mausfeld P, Schmitz A, Bohme W, Misof B, Vrcibradic D, Rocha CFD  (2002)  Phylogenetic affinities of Mabuya atlantica Schmidt, 1945, endemic to the Atlantic Ocean archipelago of Fernando de Noronha (Brazil):  Necessity of partitioning the genus Mabuya Fitzinger, 1826 (Scincidae: Lygosominae).  Zoologischer Anzeiger 241: 281-293

Nacinovic JB, Teixeira DM  (1989)  As aves de Fernando de Noronha: uma lista sistemática anotada.  Revista Brasileira de Biologia 49: 709-729

Nicoll MJ  (1904)  Ornithological journal of a voyage round the world in the "Valhalla."  Ibis 4: 32-67

Olson SL  (1981)  Natural history of vertebrates on the Brazilian Islands of the Mid south Atlantic.  National Geographic Society Research Reports 13: 481-492

Olson SL  (1994)  The endemic vireo of Fernando de Noronha (Vireo gracilirostris).  Wilson Bulletin 106: 1-17

Oren DC  (1982)  A avifauna do arquipélago de Fernando de Noronha.  Boletim do Museu Paraense Emilio Goeldi, Nova Série 118: 1-22

Oren DC  (1984)  Resultados de uma nova expedição zoológica a Fernando de Noronha.  Boletim do Museu Paraense Emilio Goeldi, Zoologia 1: 19-44

Pregill G  (1984)  Durophagus feeding adaptations in an amphisbaenid.  Journal of Herpetology 18: 186-191

Ridley HN  (1888)  A visit to Fernando do Noronha.  Zoologist, ser. 3, 12: 41-49

Ridley HN  (1890)  Notes on the zoology of Fernando Noronha.  Journal of the Linnean Society London, Zool. 20: 473-570

Sazima I, Sazima C, Silva-Jr JM  (2003)  The cetacean offal connection: feces and vomits of spinner dolphins as a food source for reef fishes.  Bulletin of Marine Science 72; 151-160

Sazima I, Grossman A, Sazima C  (2004)  Hawksbill turtles visit moustached barbers: cleaning symbiosis between Eretmochelys imbricata and the shrimp Stenopus hispidus Biota Neotropica 4 (1): 1-6

Sazima I, Sazima C, Sazima M  (2005)  Little dragons prefer flowers to maidens: a lizard that laps nectar and pollinates trees.  Biota Neotropica 5: 1-8

Sazima C, Grossman A, Bellini C, Sazima I  (2004)  The moving gardens: reef fishes grazing, cleaning, and following green turtles in SW Atlantic.  Cybium 28: 47-53

Sharpe RB  (1890)  Notes on the zoology of Fernando Noronha: Aves.  Journal of the Linnean Society London, Zool. 20: 477-480

Silva-Jr JM, Sazima I  (2003)  Whalesuckers and the spinner dolphin bonded for weeks: does host fidelity pay off.  Biota Neotropica 3 (2): 1-5

Silva-Jr JM, Pandolfo LJ, Sazima I  (2004)  Vomiting behavior of the spinner dolphin (Stenella longirostris) and squid meals.  Aquatic Mammals 30 (2): 271-274

Silva-Jr JM, Silva FJL, Sazima I  (2005a)  Rest, nurture, sex, release, and play: diurnal underwater behaviour of the spinner dolphin at Fernando de Noronha Archipelago, SW Atlantic.  Aqua 9 (4): 161-176

Silva-Jr JM, Péres-Jr AK, Sazima I  (2005b) Euprepis atlanticus (Noronha Skink) predation.  Herpetological Review 36: 62-63

Stattersfield AJ, Crosby MJ, Long AJ, Wege DC  (1998)  Endemic bird areas of the world.  Priorities for biodiversity conservation.  BirdLife International, Cambridge, UK

Informações sobre esse Artigo

Esse artigo também está disponível nas seguintes línguas: inglês

Autores: Dr. Ivan Sazima, Ph.D. em Ciências Biológicas (Zoologia) e Dr. Paul D. Haemig, Ph.D. em Ecologia Animal.

A foto no topo da página foi tirada por João Paulo Krajewski (Brasil) e ilustra a juruviara-de-noronha (Vireo gracilirostris).

A citação adequada é:

Sazima I, Haemig PD  2006   Aves, Mamíferos e Répteis de Fernando de Noronha.  ECOLOGIA.INFO #17

Caso você tenha conhecimento sobre publicações científicas importantes que foram omitidas nesse artigo ou queira dar sugestões para melhorá-lo, entre em contato com o autor por e-mail:

 haemig@ecology.info

© Copyright 2003-2006 Ecology Online Sweden. Todos os direitos reservados.

Página Inicial

 

 

artigos
anuncie
sobre
informações
  para autores

doe fotos
  e arte

direitos autorais
página inicial

bahasa melayu
castellano
deutsch
english
français
filipino
português