Haemig PD  (2008)  Ecologia do Galo-da-Serra.  ECOLOGIA.INFO 1

Ecologia do Galo-da-Serra

Nota. Esse artigo online é continuamente atualizado e revisado logo que resultados de novas pesquisas científicas tornam-se disponíveis. Portanto, apresenta as últimas informações sobre os tópicos abordados.

O galo-da-serra é um dos pássaros mais espetaculares de todo o mundo. Sua plumagem fantástica e seu cortejo colorido são tão especiais quanto as de qualquer ave do paraíso. Somente duas espécies são conhecidas: (1) o galo-da-serra andino (Rupicola peruviana) e (2) o galo-da-serra-do-pará (Rupicola rupicola).

Ambas as espécies são encontradas somente na área montanhosa do norte da América do Sul. A primeira espécie habita os Andes, desde o sul da Venezuela até a Bolívia, ao passo que a segunda habita na área montanhosa, mais antiga e bastante corroída a leste dos Andes e ao norte do rio Amazonas (isto é, nas Guianas e áreas adjacentes da Venezuela, Brasil e Colômbia)Veja as Fotos 1 e 2.

As duas espécies alimentam-se principalmente de frutas e constróem seus ninhos nas faces rochosas de penhascos, grandes rochas, grutas ou em profundos desfiladeiros. A fêmea constrói o ninho e cria os filhotes sem nenhum apoio  do macho. Em geral, a ninhada é composta de dois ovos.

Os machos adultos despendem grande parte de seu tempo em locais especiais onde têm lugar os cortejos, conhecidos como "leks". Nestes locais eles fazem a defesa do território, cortejam e/ou defendem poleiros próximos dos outros machos. Neste caso, eles se exibem para as fêmeas que visitam o "lek" (Foto 3). Em seguida, as  fêmeas selecionam os machos com quem vão seacasalar (Snow, 1982).

O acasalamento e os hábitos quanto aos ninhos dos galos-da-serra aumenta a diversidade das plantas no local

Quando o galo-da-serra come as frutas, ele engole muitas sementes inteiras, a maioria delas não é danificada ao passar pelo sistema digestivo do pássaro. Desta forma, muitas sementes continuam com poder de germinação quando o galo-da-serra as defeca ou regurgita, o que geralmente ocorre a distâncias consideráveis das árvores mães. Assim, o galo-da-serra tem um papel importante na dispersão das sementes de várias espécies de árvores florestais.

Uma vez que o galo-da-serra macho adulto, concentra seu tempo e atividades no "lek", e que a fêmea adulta concentra seu tempo e atividades nas áreas dos penhascos escolhidas para construir os ninhos (onde várias fêmeas constróem ninhos próximos umas das outras) em geral, as sementes são depositadas em "leks" e penhascos).

Por exemplo, em um "lek" dos galos-da-serra-do-pará, na Guiana Francesa, Thery e Larpin (1993) encontraram sementes de 21 espécies de plantas sob os poleiros dos machos. Acredita-se que todas elas tenham sido defecadas ou regurgitadas pelos machos.  Erard et al. (1989) recolheram excrementos encontrados sob 1 ninho de galo-da-serra-do-pará, na Guiana Francesa, e encontrou neles sementes de 52 plantas. Em outra pesquisa, Benalcazar & Benalcazar (1984) recolheram excrementos encontrados debaixo de 7 ninhos de galo-da-serra andino em um local a oeste de Cali, Colômbia, e neles encontrou sementes de, pelo menos, 35 espécies diferentes.

Quando altas densidades de sementes são depositadas desta maneira em "leks" ou em áreas onde os ninhos são construídos , e quando as condições ambientais são favoráveis para a sua germinação e crescimento, a abundância de espécies vegetais que crescem a partir destas sementes pode ser aumentada significativamente nos "leks" e próximo aos ninhos, fazendo com que as comunidades de plantas, nestas áreas, fiquem diferentes das encontradas na floresta ao seu redor.

Por exemplo, no "lek" do galo-da-serra-do-pará, na Guiana Francesa, acima mencionado, onde Thery e Larpin (1993) encontraram sementes de 21 espécies de plantas debaixo dos poleiros dos machos, eles também encontraram evidências de que os machos haviam alterado a diversidade e a abundância de plantas no "lek" através da dispersão de sementes. O "lek" estava localizado no topo de uma escarpada rocha de granito e sua vegetação era significativamente diferente daquela encontrada na floresta em torno da área e em outros topos rochosos próximos. Enquanto a maioria da flora nestes outros locais era bastante homogênea, a vegetação do "lek" era um mosaico de espécies vegetais típicas de comunidades diferentes. Depois de analisar a vegetação do "lek" mais detidamente, Thery e Larpin concluíram que grande parte desta diferença era resultado da dispersão de sementes, que ocorria há um longo tempo, causada pelos galos-da-serra machos.

Na floresta tropical da Guiana Inglesa, Gilliard (1962) encontrou vários mamoeiros (Carica papaya) crescendo na base de uma imensa rocha sobre a qual se encontravam ninhos de fêmeas do galo-da-serra-do-pará. Uma vez que não viu outros mamoeiros na floresta, especulou que as fêmeas do galo-da-serra se alimentariam de papaia em plantações nativas a uma grande distância, regurgitando as sementes nos ninhos posteriormente.

Seleção de locais para ninhos

As fêmeas do galo-da-serra constroem ninhos nas faces verticais de rochas, cavernas ou fendas (Snow, 1982; Sarria-Salas, 2005), utilizando principalmente lama misturada com saliva e materiais de plantas (Gilliard, 1962)”. A parte interna é revestida com fibras de plantas (Gilliard, 1962; Benalcazar & Benalcazar, 1984; Sarria-Salas, 2005).

Quer o local do ninho seja a entrada ou interior da caverna ou uma escarpa vertical de rocha, ele geralmente apresenta determinadas características gerais. Por exemplo, no estado do Amazonas, os locais dos ninhos do galo-da-serra-do-pará geralmente apresentam quatro elementos: (1) proximidade a um curso d’água, (2) sombra ou meia-luz em vez de incidência total de sol, (3) umidade e (4) fendas, rachaduras, fissuras ou cavidades na rocha onde o ninho é construído (Omena, 2003). Na ausência dessas características, o ninho irá secar e rachar quando a fêmea se instalar (Omena, 2003). Por esse motivo, penhascos e cavernas secas nunca são utilizados para a nidificação (Omena, 2003).

Embora o ninho seja geralmente situado próximo a um curso d’água, este último não precisa ser permanente. Por exemplo, dos 33 ninhos do galo-da-serra-do-pará encontrados no estado do Amazonas, 29 (88%) foram construídos de 2,7 a 9,1 metros de cursos de água permanentes, enquanto 4 (12%) foram construídos de 37,7 a 45 metros de um igarapé. (Omena, 2003). Entretanto, esses quatro últimos ninhos também foram construídos de 3,3 a 6,0 metros de cursos de água intermitentes que estavam secos quando o ninho começou a ser construído, mas voltaram a correr posteriormente na estação de nidificação, quando o volume de chuvas aumentou (Omena, 2003).

Inquilinos Secundários em Ninhos

Em uma ravina com um riacho com rápidas corredeiras nas cercanias de Cali, na Colômbia, um ninho abandonado de galo-da-serra-andino foi reformado e utilizado como ninho pelo melro-d'água (Cinclus leucocephalus) (Sarria-Salas, 2005). Essas espécies compartilham dos mesmos habitats ribeirinhos e vivem em regiões semelhantes (do norte dos Andes da Venezuela até a Bolívia).

Os predadores dos "leks" dos galos-da-serra

Quando os galos-da-serra se exibem nos "leks" nupciais, eles tentam atrair as fêmeas emitindo sons em alto volume, exibindo sua plumagem colorida e tentando chamar a atenção. Infelizmente, esta propaganda conspícua também atrai predadores para os "leks". No Suriname, Trail (1987) descobriu que os sons produzidos pelos galos-da-serra-do-pará machos, que se exibiam nos "leks", podiam ser ouvidos a algumas centenas de metros floresta adentro. Um diverso grupo de predadores foi atraído aos "leks" que ele pesquisou, incluindo as seguintes espécies: gavião-de-penacho (Spitzaetus ornatus), uiraçu-falso (Morphnus guianensis), gavião-pomba-da-Amazônia (Leucopternis albicollis), gavião-preto (Buteogallus urubitinga), gavião-bambachinha-grande (Accipiter bicolor), gavião-relógio (Micrastur semitorquatus), onça-pintada (Panthera onca), puma ou suçuarana (Puma concolor), jaguatirica (Leopardus pardalis) e a cobra Boa constrictor. Além disso, Trail observou a morte de 4 galos-da-serra machos que faziam a dança pré-nupcial, dois por gavião-de-penacho e dois por cobra Boa constrictor.

Referências

Benalcazar CE, Benalcazar F Silvia de  (1984)  Historia natural del Gallo de Roca Andino (Rupicola peruviana sanguinolenta) [Natural history of the Andean Cock-of-the-Rock].  Cespedesia 13: 59-92

Erard C, Thery M, Sabatier D  (1989)  Regime alimentaire de Rupicola rupicola (Cotingidae) en Guyane Francaise:  Relations avec la frugivorie et al zoochorie.  Rev Ecol (Terre Vie) 44: 47-74

Gilliard ET  (1962)  On the breeding behavior of the Cock-of-the-Rock (Aves, Rupicola rupicola).  Bulletin of the American Museum of Natural History 124: 35-68

Luy GA, Bigio D (1994) Notes on the feeding habits of the Andean Cock-of-the-Rock (Rupicola peruviana) Ornitologia Neotropical 5: 115-116

Omena Júnior, Reynier de Souza  (2003)  Distribuição espacial, comportamento, abundância e vulnerabilidade à predação de galos-da-serra (Rupicola rupicola), no Município de Presidente Figueiredo, Estado do Amazonas.  Trabalho de Conclusão de Curso, Centro Universitário Nilton Lins, Manaus

Rodriguez-Ferraro A, Azpiroz AB (2005) Notes on the natural history of the Andean Cock-of-the-Rock (Rupicola peruviana) in western Venezuela. Ornitologia Neotropical 16: 105-108

Sarria-Salas S  (2005)  Caracterización del Hábitat Reproductivo, Sitios de Anidamiento y Leks, en una Población de Gallo De Roca Andino (Rupicola Peruviana), Parque Nacional Natural Farallones De Cali, Valle Del Cauca. Fundación Natura y Corporación Autónoma Regional de Valle Del Cauca, Cali. Disponible desde URL: http://www.natura.org.co/documents/Fauna-Informe-Gallito-de-Roca.pdf

Snow D  (1982)  The Cotingas.  Oxford University Press, UK

Thery M, Larpin D  (1993)  Seed dispersal and vegetation dynamics at a Cock-of-the-Rock's lek in the tropical forest of French Guiana.  Journal of Tropical Ecology 9: 109-116.

Trail PW  (1987)  Predation and antipredator behavior at Guianan Cock-of-the-Rock leks.  Auk 104: 496-507

Informações sobre esse Artigo

Esse artigo também está disponível nas seguintes línguas:

espanhol    francês    inglês

Autor: Dr. Paul D. Haemig (PhD em Ecologia Animal)

Fotografia:  Galo-da-Serra Andino, Parque Nacional de Manú, Peru.  Foto de Harrison Liu (Estados Unidos da América).

A citação adequada é:

Haemig PD  2008   Ecologia do Galo-da-Serra.  ECOLOGIA.INFO #1

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