Embora
os pecarídeos e os porcos apresentem
semelhanças, sua classificação e distribuição são diferentes. Os pecarídeos pertencem à família dos mamíferos Tayassuidae (3
espécies) e são nativos do Novo Mundo,
enquanto os porcos pertencem à
família Suiidae
(16 espécies) e
são nativos do Velho Mundo.
Nesse artigo, analisaremos a ecologia das duas espécies de pecarídeos mais difundidas (o
cateto Tayassu tajacu e a queixada Tayassu pecari), focando
suas diferenças quando simpátricos (i.e. ocorrem na mesma
área).
Ecologia Geral e Comportamento das Espécies
de Pecarídeos
O cateto
é encontrado desde o sudoeste
dos Estados Unidos (Texas, New Mexico, Arizona) até o norte da Argentina. Ao
longo das áreas de distribuição, ocorre numa ampla
variedade de habitats, inclusive desertos, florestas de espinhos, chacos,
caatingas, florestas de carvalho e florestas tropicais.
As queixadas
ocorrem desde o sul de Veracruz e Oaxaca, no México,
até o sul
do Uruguai e Norte da Argentina. Na parte norte de sua área (ex. México e América Central), se restringem
a florestas tropicais úmidas,
mas na América
do Sul, ocorrem em habitats úmidos
e secos, inclusive em florestas tropicais, chacos e caatingas.
Portanto,
as queixadas e os catetos são
simpátricos
na maior parte da América
do Sul e nas florestas tropicais úmidas do México e da América Central. Uma terceira espécie de cateto ocorre
juntamente com essas duas espécies
no Gran Chaco do Paraguai e nas partes adjacentes da Bolívia e Argentina. Essa
terceira espécie, o taguá (Catagonus wagneri),
está
ameaçada de extinção e será tratada em uma análise separada.
As
queixadas e os catetos diferem entre si de várias
maneiras. Embora todas as espécies
de pecarídeos
sejam altamente sociais, a queixada vive tipicamente em bandos maiores do
que os do cateto. Por exemplo, nas florestas tropicais, Emmons (1997)
reportou que as queixadas geralmente ocorrem em bandos de 50 a mais de 300
indivíduos, enquanto os catetos
geralmente encontra-se em bandos de 6 a 9 indivíduos. Entretanto, agregados maiores de catetos às vezes podem ser vistos,
como por exemplo, quando mais de um bando é atraído
para uma rica fonte de alimentos (Robinson e Eisenberg, 1985).
Os bandos
de queixadas encontram-se em grandes áreas e parecem não ser territoriais, enquanto os bandos de cateto ocorrem
em áreas
menores e defendem seu território
(Sowls,1997). Kiltie e Terborgh (1983) indicam que os grandes bandos nômades da queixada são singulares. Nenhum outro
ungulado que habita florestas dos neotrópicos
ocorre em grupos tão
grandes que, na verdade, lembram o tamanho dos bandos de muitos ungulados
que vivem em planícies.
A
queixada é maior do que o cateto e pesa
cerca de um terço a
mais. Os principais predadores dos pecarídeos
são a
onça-pintada (Panthera onca),
puma ou suçuarana
(Puma concolor) e os seres humanos (Homo sapiens) (Kiltie e
Terborgh, 1983).
O cateto apresenta maior tolerância à caça por seres humanos e às
alterações do habitat provocadas pelo homem do que a queixada e, portanto,
sobrevive melhor do que a última espécie em áreas onde a fixação humana é
mais numerosa (Altrichter e Boaglio, 2004).
Um motivo pelo qual a queixada é mais vulnerável à caça pelos humanos pode
ser sua tendência a confrontar ameaças, enquanto o cateto tipicamente foge
do perigo (Peres, 1996; Cullen et al., 2000; Keuroghlian et al., 2004).
Diferenças em Forragem e
Hábitos
Alimentares
Em
florestas tropicais úmidas
e florestas tropicais decíduas,
uma grande quantidade de frutas, sementes e castanhas caem das árvores e constituem os
principais alimentos da queixada e do cateto que vivem nesses locais
(Kiltie, 1981; Bodmer, 1991a; Barreto et al., 1997). Grandes
quantidades de larvas de besouros freqüentemente infestam os endocarpos
das nozes caídas e aumentam o valor nutricional deste alimento (Silvius
2002).
Considerando-se que
ambos mastigam as sementes completamente, apenas algumas sementes minúsculas (ex. Rubiaceae
e pequenas Brosimum) escapam da destruição e passam pelo sistema
digestivo sem alteração
(Bodmer, 1991b). Portanto, as duas espécies
são
principalmente predadores de sementes, em vez de dispersores. Eles
dispersam sementes maiores apenas quando as cospem durante a mastigação (Bodmer, 1991b).
Quando
comparada ao cateto, em virtude do maior tamanho, a queixada consegue
triturar sementes e castanhas mais duras com a mandíbula
(Kiltie, 1982). Por exemplo, em testes de alimentação realizados no Zoológico de Lima, no Peru, Kiltie
constatou que os catetos não
conseguiam triturar e comer castanhas das palmeiras Iriartea ventricosa
e Socratea exorrhiza. Entretanto, as queixadas do mesmo zoológico conseguiam triturar e
comer essas castanhas duras.
No Parque Nacional de Manú na Amazônia Peruana, Kiltie constatou
que as castanhas caídas
das palmeiras Iriartea e Socratea se acumulavam em grandes
quantidades embaixo das árvores
até que
bandos de queixadas as encontravam e consumiam. Aparentemente, essas
castanhas eram muito duras para que outros animais as triturassem e
comessem. Contudo, Kiltie também constatou que havia várias espécies de sementes e castanhas
comuns em Manú, que as
próprias queixadas não tinham força suficiente para triturar.
Essas castanhas duríssimas
vinham de certas palmeiras (Phytelephas microcarpa, Scheelea
sp., Mauritia flexuosa) e de uma leguminosa (Dipteryx micrantha).
Em contraste com essa castanhas muito duras, tanto a queixada como o
cateto conseguiam triturar e comer castanhas das palmeiras Astrocaryum
macrocalyx e Jessenia sp., que eram menos duras do que as
outras espécies estudadas por Kiltie,
que também foram encontradas em Manú.
Em
florestas tropicais úmidas,
a forragem das duas espécies
de pecarídeos
também difere
em outros aspectos. Em Manú,
Kiltie e Terborgh (1983) constataram que a queixada "escava os
primeiros centímetros
da camada do solo e da camada humífera...
utilizando o focinho mais como um arado do que como uma pá. Geralmente vários animais se movem para
frente, ombro a ombro, empurrando a camada humífera para frente." As queixadas raramente fizeram
escavações
profundas. Em contraste, os catetos às
vezes fizeram escavações
profundas para encontrar raízes
e tubérculos,
mas não reviraram a camada humífera do solo como a queixada.
O cateto pegava castanhas e frutas individualmente da superfície, sem mexer na camada humífera (Kiltie e Terborgh,
1983).
A
queixada e o cateto também
são simpátricos na caatinga
brasileira, uma região árida de florestas secas e
abertas, florestas de espinhos e cerrado. Aqui, entretanto, ambos se
alimentam principalmente de raízes
e tubérculos
em vez de frutas. Por exemplo, no Parque Nacional da Serra da Capivara no
Piauí, Olmos (1993) constatou que
a dieta da queixada compreendia 79% de raízes, 6% de tubérculos, 14% de sementes e 1% de cipós suculentos. Em contraste, o
cateto apresentava hábitos
alimentares mais generalizados, alimentando-se igualmente de raízes (33%), tubérculos (40%) e sementes
(26%). Somente um por cento de sua dieta compreendia frutas. Olmos indica
que na caatinga as raízes e
tubérculos são uma fonte de alimento mais
confiável do que frutas e folhas,
uma vez que os últimos são produzidos apenas quando há uma pluviosidade adequada.
Durante secas prolongadas, que ocorrem nessa região, os pecarídeos sobrevivem porque cavam
e se alimentam das raízes
e tubérculos.
Na
Caatinga, Olmos (1993) constatou uma sobreposição da dieta dos dois pecarídeos. Por exemplo, uma árvore abundante, Manihot
caerulescens (Euphorbiaceae), era importante para ambos, pois suas raízes e sementes muito duras
forneciam 33% do alimento das queixadas e 21% dos catetos. Todavia, Olmos
também constatou uma separação nos hábitos alimentares. Por
exemplo, as raízes de uma das árvores mais comuns da área, a Thiloa glaucocarpa
(Combretaceae), constituía
48% da dieta da queixada, mas apenas 7% da dieta do cateto. Além disso, 53% dos alimentos
consumidos pelo cateto eram raízes
e tubérculos
de espécies de plantas de que a
queixada não se alimentava (i.e. Boerhaavia
coccinea Nyctaginaceae, Swarzia flammengii Caesalpinoideae e Pentalostelma
sp. Asclepiadaceae).
Diferenças no Uso do
Habitat
Ao longo
do rio Amazonas, há vastas
extensões de florestas tropicais de
planície que ficam alagadas pelo
rio entre 4 e 8 meses do ano. Essas florestas inundáveis geralmente são chamadas de “florestas de várzea." Em maiores elevações (60 a 200 metros), as
florestas tropicais nunca sofrem inundação,
sendo portanto chamadas de “florestas
de terra firme”
(Sick, 1993). Na Amazônia,
as duas espécies
de pecarídeos
ocorrem em ambos os tipos de florestas, mas a queixada prefere florestas
de várzea, enquanto o cateto
prefere florestas de terra firme (Bodmer, 1990). Em ambas as florestas, a
queixada freqüenta habitats mais úmidos do que o cateto
(Bodmer, 1991a).
Na Amazônia Peruana, as duas espécies de pecarídeos reagem de maneira
diferente à inundação das florestas de várzea (Bodmer, 1990). As
queixadas que utilizam as florestas de várzea
extensivamente e distribuem-se em grandes extensões, reagem à inundação ao migrarem para distantes
florestas de várzea,
porém não alteram a dieta. Os
catetos, por sua vez, geralmente evitam as florestas de várzea e sua área é menor do que a das
queixadas. Esses relativamente poucos catetos que habitam as
florestas de várzea não migram durante as inundações, mas ficam presos em ilhas
mais elevadas no rio, onde comem mais folhas e menos frutas.
Na Reserva
da Biosfera de Calakmul, em Campeche, México, foram encontradas pegadas de
queixada apenas nas florestas médias subperenes, enquanto pegadas de
cateto foram vistas em três tipos de florestas proporcionalmente à
disponibilidade dessas diferentes florestas: (1) média subperene, (2)
baixa subperene sazonalmente inundada e (3) semi-decídua baixa
(Reyna-Hurtado e Tanner, 2005). Conseqüentemente, a queixada foi
considerada um especialista em habitats, enquanto o cateto foi considerado
um generalista.
Nas áreas
fora da Reserva de Calakmul, contudo, as florestas médias subperenes eram
utilizadas extensivamente pelos humanos para a caça e colheita de chicle,
madeira, castanhas de palmeiras e mel. Nessas áreas, encontrou-se cerca de
metade das pegadas de queixada em florestas médias subperenes e metade em
florestas subperenes baixas inundadas sazonalmente (Reyna-Hurtado e
Tanner, 2005). Em contrapartida, a freqüência das pegadas de cateto nas
florestas médias subperenes aumentou (Reyna-Hurtado e Tanner, 2005).
Encontros entre espécies de pecarídeos
O que
acontece quando os catetos encontram seus parentes maiores, as queixadas?
Na Mata Atlântica do Brasil, Keuroghlian et al. (2004) registraram 9
ocorrências de encontros de manadas de catetos com submanadas de
queixadas. Em cada caso, "minutos após os encontros”, os catetos
“rapidamente deixavam a área onde as queixadas estavam entrando”.
Esses
resultados são compatíveis com o estudo mexicano citado acima, no qual
rastros de catetos eram vistos mais freqüentemente em florestas médias
subperenes após a redução do uso dessas florestas pelas queixadas
(Reyna-Hurtado e Tanner, 2005).
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